Contos
Uma História para Cada Elemento Químico · N.85 · Tony Ditlef

N.85 – Ástato, O Elemento que Mora no Fio da Navalha


A madrugada no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) tinha um cheiro metálico e estéril, uma mistura de ozônio e desinfetante hospitalar que parecia impregnar a pele da Dra. Betina Moretti. Diante dela, protegido por vidros plumbíferos e manipuladores remotos, repousava o alvo de bismuto-209 que acabara de sair do cíclotron. O brilho da sala de manipulação era a única coisa que a mantinha acordada após dezoito horas de vigília. Ela sabia que, naquele exato momento, o relógio não era apenas um marcador de tempo, mas um carrasco. O Ástato-211 estava ali, invisível, silencioso, mas morrendo a cada segundo que passava.

Betina ajustou os controles dos braços mecânicos com a precisão de um cirurgião. Ela precisava dissolver o bismuto, destilar o ástato e purificá-lo antes que a física seguisse seu curso inexorável. O suor frio escorria por suas têmporas, não pelo calor do laboratório, mas pela consciência de que o elemento 85 é um fantasma que se recusa a ser capturado. Ela olhou para o monitor que exibia a atividade radioativa; os picos de energia alfa eram a prova de que o milagre da transmutação ocorrera, mas a curva de decaimento já começava sua descida cruel para o esquecimento.

O ástato (símbolo At, número atômico 85) é o elemento mais raro da tabela periódica na crosta terrestre. Estima-se que existam menos de 30 gramas de ástato em toda a crosta do planeta a qualquer momento. Seu isótopo mais estável, o Ástato-210, tem meia-vida de apenas 8,1 horas. O Ástato-211, usado em pesquisas médicas, também se desintegra rapidamente — 7,2 horas. É um elemento fantasma: mal existe tempo de estudá-lo antes que ele desapareça.

O silêncio do laboratório foi quebrado pelo toque estridente de seu celular. O nome no visor — Hospital Sírio-Libanês — fez seu coração falhar uma batida. Era o Dr. Oswaldo, o hematologista de Liana. A notícia veio sem preâmbulos, seca como um diagnóstico terminal: o linfoma de Hodgkin de sua filha, aquela menina de 19 anos que até seis meses atrás planejava sua faculdade de arquitetura, não respondera à última linha de quimioterapia. O estágio III agora flertava com o IV. "Betina", disse o médico com uma voz carregada de pesar, "estamos ficando sem opções convencionais. Se houver algo no IPEN, qualquer protocolo experimental, agora é a hora."

Betina desligou o aparelho e olhou para o frasco de eluição. Ali, naquela solução límpida, estava o resultado de cinco anos de sua vida acadêmica. O Ástato-211 que ela e Rafael Tavares vinham tentando domar. Rafael entrou na sala limpa, ajustando a máscara. Ele viu o rosto de Betina e soube imediatamente. Ele não perguntou sobre o hospital; ele perguntou sobre o elemento. "Conseguimos a pureza necessária?", ele questionou, a voz abafada pelo filtro. Betina apenas assentiu, as mãos trêmulas ainda segurando os controles remotos. O dilema ético não era uma abstração acadêmica; era uma ferida aberta no meio do laboratório.

O Ástato-211 decai por emissão alfa, liberando partículas de alta energia que matam células cancerígenas com precisão milimétrica, poupando tecidos saudáveis ao redor. Diferente da radioterapia convencional (fótons), a radioterapia alfa deposita sua energia em um raio de apenas 50 a 90 micrômetros — o diâmetro de um fio de cabelo humano. Por isso é tão promissora para tumores pequenos e metástases. O desafio é que o ástato é volátil, difícil de quelar (prender a uma molécula carreadora) e exige que todo o processo — da produção à injeção no paciente — ocorra em menos de 2 horas.

"Rafael, é a Liana", sussurrou Betina, finalmente quebrando o protocolo de frieza científica. "O lote de hoje... ele precisa ser para ela." Rafael parou o que estava fazendo. Ele era o físico, o homem que calculava as probabilidades e os riscos. Ele sabia que o protocolo exigia que aquele lote fosse para o Paciente 04 da lista de espera, um senhor de 60 anos com câncer de próstata metastático. "Se você fizer isso, Betina, você não será mais a pesquisadora. Será a mãe. E se der errado, você nunca vai se perdoar. Mas se der certo, ninguém vai acreditar que foi pela ciência", ele disse, as palavras pesando como chumbo.

A tensão entre os dois era quase palpável, competindo com a radiação ionizante que os cercava. Betina sabia que Rafael tinha razão, mas a razão é um luxo que mães de filhos moribundos não podem se dar. Ela começou a preparar o anticorpo monoclonal que serviria de cavalo de Troia para o ástato. O problema era a quelação. O ástato, sendo o mais pesado dos halogênios, tem uma química errática. Ele se comporta como um metal quando deveria ser um não metal; ele se solta das moléculas orgânicas com uma facilidade desesperadora.

Betina fechou os olhos por um segundo e Liana voltou inteira: pequena, correndo no parque atrás de uma pipa colorida, o cabelo castanho voando desordenado, o riso aberto que parecia ignorar a gravidade. O cheiro de xampu de bebê que ainda parecia residir em sua memória olfativa, um aroma de conforto que o ozônio do laboratório tentava apagar. Lembrou do dia do diagnóstico, seis meses antes, quando a palavra "linfoma" entrou na sala como um intruso e mudou o endereço de todas as certezas. O mundo, que antes era feito de projetos de arquitetura e cálculos de estruturas, reduziu-se a hemogramas e contagens de plaquetas.

Liana, que passava as tardes desenhando plantas baixas e sonhando com a faculdade, agora enfrentava uma quimioterapia que lhe roubava o vigor, mas não a ironia. "Vou desenhar um hospital que não cheire a remédio, mãe", ela dissera certa vez, com a voz fraca, após uma sessão particularmente agressiva. "Um lugar onde as paredes não sejam brancas e o teto tenha janelas para o céu." Agora, aquela menina que planejava o futuro estava confinada a um leito, o tumor de Hodgkin dobrando de volume a cada semana, ignorando as barreiras da medicina convencional. A urgência de Betina não era mais acadêmica; era visceral.

O nome 'ástato' vem do grego ástatos, que significa 'instável'. Foi sintetizado pela primeira vez em 1940 por Dale Corson, Kenneth MacKenzie e Emilio Segrè na Universidade da Califórnia, Berkeley. É o elemento mais pesado dos halogênios (família do flúor, cloro, bromo e iodo), mas ao contrário de seus irmãos mais leves, o ástato é radioativo e praticamente inexistente na natureza. Sua química é um mistério: os poucos estudos feitos sugerem que ele se comporta como um metal em algumas condições e como um não metal em outras. Até hoje, ninguém jamais viu um pedaço de ástato puro.

A mente de Betina viajou para Berkeley, 1940. Imaginou o laboratório de Dale Corson, Kenneth MacKenzie e Emilio Segrè. O cíclotron de 60 polegadas zumbindo, uma fera de metal e magnetismo bombardeando o bismuto com partículas alfa. Eles sabiam que estavam no rastro de algo que a natureza decidira esconder. Quando a detecção confirmou o novo elemento, a excitação da descoberta foi rapidamente temperada pela constatação de sua natureza efêmera. Ele desaparecia rápido demais para ser pesado, para ser visto, para ser tocado.
Eles escolheram o nome ástatos — instável — não apenas como uma descrição técnica, mas como um batismo de sua essência fugaz. Era a ironia suprema da ciência: o elemento mais raro da Terra, nascido do bombardeio violento em um laboratório californiano, tornaria-se, décadas depois, a última e mais sofisticada arma contra o câncer. O que Corson e seus colegas viram como uma curiosidade da física nuclear era, para Betina, a única ponte entre a vida e a morte de sua filha.

"O pH está subindo, Rafael! Estamos perdendo a estabilidade", gritou Betina, observando o sensor. O ástato estava começando a precipitar. O cronômetro na parede marcava 55 minutos desde o fim da irradiação. Eles tinham pouco mais de uma hora para finalizar a quelação, realizar o controle de qualidade e transportar a dose até o hospital. Rafael aproximou-se do agitador magnético. "Eu tenho uma ideia. Aumentamos a temperatura para 37 graus e introduzimos o agente redutor em duas etapas. É o que eu vi nas simulações de Monte Carlo na semana passada."

"Nunca testamos isso com atividade real!", Betina rebateu, o pânico subindo pela garganta. "Se falharmos, o lote vira lixo radioativo." Rafael olhou-a nos olhos através do visor. "Liana não tem uma segunda chance. O tumor dela está dobrando de volume a cada semana. Ou fazemos isso agora, ou o ástato desaparece e ela vai junto." Betina assentiu. "Faça."

A produção de Ástato-211 é feita em aceleradores de partículas (cíclotrons), bombardeando bismuto-209 com partículas alfa. O rendimento é baixíssimo — tipicamente, menos de 1 bilionésimo do material alvo é convertido em ástato. O custo de produção é astronômico: uma dose única para tratamento pode custar dezenas de milhares de dólares. E mesmo assim, o elemento começa a morrer no momento exato em que nasce.

Os minutos seguintes foram um borrão de precisão técnica e desespero contido. Rafael manipulava as pipetas automáticas com uma calma que Betina invejava. O ajuste do pH estabilizou. A solução, que antes ameaçava turvar, tornou-se de um rosa pálido, quase etéreo. O contador Geiger estalava ritmicamente, uma música macabra que celebrava a presença do elemento 85. Betina verificou a pureza radioquímica na cromatografia rápida: 98%. Era perfeito. O ástato estava preso, algemado ao anticorpo, pronto para caçar as células de Reed-Sternberg que devoravam o corpo de sua filha.

Betina pegou o malote de transporte blindado. Ela não esperou pela ambulância; ela mesma assumiu o volante. O trânsito de São Paulo ao amanhecer era um monstro de metal e luzes de freio. O malote no banco do passageiro parecia um passageiro silencioso e pesado, carregando uma carga que valia mais do que qualquer joia. Cada semáforo fechado era uma facada na sua esperança. Ela olhava para o painel do carro, mas não via a velocidade; via a meia-vida contando, os átomos de ástato se transformando em chumbo, perdendo a força de combate a cada minuto perdido na Marginal Pinheiros.

O medo de que o esforço fosse em vão a fazia apertar o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. A cidade acordava, indiferente ao drama atômico que cruzava suas avenidas. Quando finalmente avistou a fachada do hospital, o sol já vencia os prédios, tingindo o céu de um laranja pálido. Ela correu pelos corredores, o malote batendo contra sua perna, até chegar à unidade de terapia intensiva. Liana estava pálida, quase transparente, cercada por monitores que bipavam uma contagem regressiva silenciosa.

A infusão começou às 06h45. Betina segurou a mão da filha enquanto o líquido rosado entrava pelo cateter. Ela sabia que, dentro de Liana, uma guerra atômica estava prestes a começar. Milhões de partículas alfa seriam disparadas como balas de canhão microscópicas, percorrendo distâncias menores que o diâmetro de uma célula, destruindo o DNA do câncer com uma violência que nenhum outro tratamento poderia igualar. E então, em algumas horas, o ástato se transformaria em chumbo ou polônio, deixando de existir como elemento, cumprindo sua promessa de instabilidade.

Betina sentou-se na poltrona ao lado do leito. O cansaço finalmente a atingiu, uma onda pesada que fechava seus olhos. Ela olhou para o relógio. O ástato agora tinha apenas metade de sua força original. Em sete horas, seria um quarto. Em um dia, seria quase nada. Ela pensou na ironia de dedicar a vida a algo que foge por entre os dedos. Mas enquanto observava o peito de Liana subir e descer em uma respiração agora um pouco mais profunda,

Betina percebeu que a imortalidade não está na permanência, mas no impacto que se deixa antes de partir. O ástato morreria para que Liana pudesse viver.

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