Contos
Uma História para Cada Elemento Químico · N.80 · Tony Ditlef

N.80 – Mercúrio, Elixir da Longevidade


Xu Fu tinha o hábito de provar a poção antes de levá-la ao Imperador. Não por lealdade, embora dissesse isso em voz alta sempre que algum guarda da corte ou ministro curioso perguntava. Provava porque um alquimista que não confia no próprio trabalho não merece o título. E porque, no fundo, gostava daquele gosto metálico, frio, que ficava na língua muito depois de engolido, como se alguma coisa tivesse ficado para trás, morando ali, esperando o momento de se manifestar.

Trabalhava havia onze anos no laboratório mais isolado do palácio, um cômodo sem janelas para que a luz do dia não interferisse nas reações, iluminado só por lamparinas de óleo que deixavam uma fuligem fina sobre todas as superfícies. O ritual era sempre o mesmo: ele começava moendo o cinábrio, o minério vermelho-sangue, até que se tornasse um pó tão fino que parecia fumaça sólida. Depois, sob o calor das brasas, o enxofre se desprendia e o metal se libertava.

Xu Fu observava, fascinado, as pequenas esferas prateadas suando da pedra aquecida, juntando-se no fundo do cadinho como lágrimas de um deus antigo. O vapor que subia durante o processo não tinha cheiro, não tinha cor, não deixava nenhum aviso nos pulmões. Xu Fu o respirava profundamente, acreditando que a essência da imortalidade entrava em seu corpo pelo ar antes mesmo de tocar seus lábios.

Sobre a mesa de pedra, o pequeno poço de metal líquido brilhava como um espelho impossível, prateado, denso, indiferente. Era o único metal que, à temperatura ambiente, se recusava a ser sólido. Não obedecia. Os outros metais cediam ao calor do alquimista com relutância; o mercúrio cedia ao frio com a mesma indiferença com que cedia a tudo o mais. Não tinha forma própria. Tomava a forma do recipiente, e quando não havia recipiente, juntava-se em gotas redondas, perfeitas, que rolavam pela mesa sem deixar rastro, fugindo do toque como se possuíssem uma inteligência mineral e esquiva.

Número atômico: 80. Símbolo: Hg, do latim hydrargyrum, prata líquida. O único metal que permanece líquido em temperatura ambiente. Os romanos o chamavam de argentum vivum. Prata viva. Como se fosse a única matéria capaz de se mover por vontade própria.

O Imperador Qin Shi Huang tinha treze anos quando subiu ao trono e quarenta e nove quando Xu Fu deixou de contar os dias entre uma viagem e outra. Não era exatamente medo o que o alquimista sentia diante do soberano, embora todos no palácio chamassem aquilo de medo, por falta de palavra melhor. Era mais parecido com o que sentia diante do próprio mercúrio: respeito por algo capaz de tomar qualquer forma, de ser líquido e denso ao mesmo tempo, de refletir tudo sem absorver nada.

O Imperador queria viver para sempre. Tinha dito isso a Xu Fu na primeira semana de trabalho, sem rodeios, como quem encomenda uma estrada ou uma muralha que deveria durar dez mil gerações.

Xu Fu tinha estudado os textos antigos com uma obsessão que beirava o delírio. Sabia que os mestres antes dele já suspeitavam de alguma coisa. Havia registros vagos sobre tremores, sobre dentes que caíam sem motivo, sobre alquimistas que perdiam a memória dos próprios nomes depois de anos respirando os vapores do laboratório. Mas os mesmos textos diziam que o mercúrio era a substância mais próxima da imortalidade que existia, justamente porque não morria, não apodrecia, não enferrujava, não se decompunha como tudo o mais que vinha da terra. Xu Fu escolheu acreditar na segunda parte. Era uma escolha conveniente para quem buscava o favor do homem mais poderoso do mundo.

O mercúrio não corrói. Não reage com o oxigênio do ar à temperatura ambiente, como fazem o ferro e o cobre. Permanece brilhante, intacto, eternamente o mesmo, enquanto tudo ao redor envelhece. É essa imutabilidade aparente que confundiu, por séculos, alquimistas de várias civilizações. Pensaram que algo que não se transformava poderia impedir a transformação de outras coisas. Não impede. Apenas demora mais para mostrar o que está fazendo.

Foi a mão que avisou primeiro. Um tremor pequeno, quase imperceptível, que Xu Fu notou um dia ao tentar segurar um pincel fino para escrever os ideogramas da fórmula. Atribuiu ao cansaço. Tinha dormido pouco, a corte exigia cada vez mais frascos, cada vez mais frequência. Depois vieram as gengivas. Um leve sangramento ao escovar os dentes com a casca de salgueiro. Era mais fácil culpar a água ou a dieta pobre das viagens. Mas havia também os dias de esquecimento. Ele olhava para seus assistentes e via rostos vazios de nomes. Sentia uma irritação súbita, uma raiva que explodia por um frasco mal lavado e desaparecia deixando um rastro de confusão mental.

O vapor de mercúrio, inalado repetidamente, atravessa a barreira entre o sangue e o cérebro com uma facilidade que nenhum outro metal pesado possui. Acumula-se ali. Interfere na transmissão entre os neurônios. Os sintomas chegam devagar e na ordem errada: primeiro o tremor, depois a irritabilidade, depois a memória, depois a personalidade inteira. Chama-se, ainda hoje, eretismo mercurial. A palavra eretismo vem do grego erethismos, irritação. Os chapeleiros ingleses do século dezenove, que usavam mercúrio para tratar o feltro, ficaram famosos por isso. Mad as a hatter. Louco como um chapeleiro.

Aos quarenta e nove anos, numa das viagens que insistia em fazer pelo leste do império, o Imperador morreu. A ironia foi cruel e silenciosa. O homem que buscava a vida eterna sucumbiu justamente às poções que deveriam preservá-lo. Os ministros, apavorados com a possibilidade de uma guerra civil, decidiram esconder a morte. Durante semanas, a comitiva continuou a viagem como se o soberano ainda estivesse vivo dentro da carruagem imperial. O calor do verão chinês, porém, começou a cobrar seu preço. O corpo do Imperador iniciou o processo natural de decomposição que o mercúrio prometera deter.

Para disfarçar o cheiro insuportável da morte que emanava da carruagem, os ministros ordenaram que duas carroças cheias de peixes salgados fossem colocadas à frente e atrás do veículo imperial. O odor acre e pútrido do peixe em decomposição misturava-se ao cheiro do Imperador, criando uma atmosfera de náusea que os soldados suportavam em silêncio, proibidos de falar sob pena de execução. Era uma procissão de mentiras, onde o cheiro da realidade era combatido com o cheiro de outra morte, enquanto o império seguia acreditando que seu deus ainda respirava atrás das cortinas de seda.

Xu Fu não estava naquela comitiva. Ele permanecera no laboratório, preparando mais um frasco, quando a notícia finalmente chegou, semanas depois. Ele ficou olhando para o metal líquido sobre a mesa. O reflexo de seu rosto estava distorcido, alongado. O mercúrio nunca devolveu uma imagem fiel de nada. Só parecia fiel. Ele lembrou-se dos avisos nos textos antigos que decidira ignorar. A "irritação" dos mestres, o "tremor" dos sábios. Estava tudo lá. Ele não tinha encontrado o elixir; tinha encontrado o espelho de sua própria destruição.

A aceitação veio com um silêncio pesado. Xu Fu percebeu que sua busca pela imortalidade do Imperador fora, na verdade, o seu próprio lento suicídio. Ele tocou a superfície do metal com a ponta do dedo. A gota se dividiu em dezenas de esferas menores, fugindo dele, para logo depois se reunirem no centro, brilhantes e indiferentes ao seu destino. Ele entendeu que o mercúrio não se importava com impérios ou alquimistas. Ele apenas existia, eterno em sua liquidez.

O mercúrio continua sendo extraído até hoje, principalmente do cinábrio, seu minério vermelho-vivo. O planeta mais próximo do Sol recebeu o mesmo nome, por ser o mais rápido a percorrer o céu, veloz e imprevisível como o deus mensageiro romano. Tudo o que se move rápido ganha nome de mercúrio. Mas o metal, no corpo humano, nunca teve pressa nenhuma. Esperou pacientemente onze anos dentro de Xu Fu. Teria esperado mais, se precisasse.

O Imperador Qin Shi Huang alcançou a imortalidade, mas não da forma que Xu Fu planejou. Seu nome batizou um país e seu túmulo, guardado por milhares de guerreiros de terracota, tornou-se lenda.

Dizem que, dentro de sua tumba lacrada, correm rios de mercúrio puro, simulando os grandes rios da China, fluindo eternamente no escuro, protegendo o corpo de um homem que morreu tentando ser como o metal que o matou.

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