A ferida de Dona Zilda não fechava. Três semanas de curativo, pomada, reza e promessa, e o talho no pé direito continuava ali, úmido, teimoso, como se a pele tivesse desistido de se entender com o resto do corpo. Fernanda olhou para a perna da senhora, para a meia-calça dobrada no tornozelo, para o rosto cansado de quem já tinha visto médico demais na vida e não queria ver mais nenhum.
— A senhora está tomando os remédios certinho, Dona Zilda?
— Tomo. Mas isso aqui não sara, filha. Não sara.
Fernanda era nutricionista clínica, não dermatologista. Mas sabia ler um prontuário como quem lê uma partitura: faltava alguma coisa ali. Aos 74 anos, Dona Zilda tinha osteoporose diagnosticada, uma fratura de fêmur dois anos antes, imunidade baixa — gripava três vezes por inverno — e agora essa ferida que não cicatrizava. O sangue, quando Fernanda pedia os exames, vinha com números que não mentiam: coagulação lenta, colesterol alto, glicose no limite.
— A senhora come o quê, no dia a dia?
— Arroz, feijão, um ovo. Carne quando o neto traz. Verdura, quase não.
Fernanda anotou. Arroz, feijão, um ovo. E ali, naquele prato magro, estava o fio do novelo. Faltava quase tudo, mas faltava principalmente uma coisa pequena, discreta, que ninguém vê e todo mundo precisa.
O manganês é um metal de transição, símbolo Mn, número atômico 25, massa atômica 54,938 u. É duro, quebradiço, de cor cinza-prateada, e no corpo humano não trabalha sozinho: atua como cofator de enzimas, espécie de chave que liga reações químicas essenciais. Sem ele, engrenagens inteiras do metabolismo simplesmente param.
Fernanda pensou no pai. Antônio, sessenta e oito anos, ex-operário de uma usina de ferromanganês no interior de Minas. Vinte e três anos de chão de fábrica, de forno, de poeira fina que se deposita nos pulmões e, com o tempo, em lugares piores. O pai de Fernanda agora andava devagar, com o corpo inclinado para a frente, os dedos tremendo quando tentava abotoar a camisa. Os médicos diziam Parkinson. Fernanda, que estudava o elemento desde a faculdade, tinha outra palavra na cabeça, uma palavra que não dizia em voz alta para não machucar a mãe: manganismo.
O mesmo elemento. O mesmo átomo. Na ferida de Dona Zilda, faltava. No cérebro do pai, sobrava. Fernanda vivia entre essas duas pontas há anos, como quem atravessa uma ponte todos os dias e finge que não vê o rio embaixo.
Naquela noite, depois do consultório, ela abriu o caderno de receitas antigas da avó — não por nostalgia, mas porque a avó, parteira e curandeira de um povoado pequeno, sabia coisas que os livros demoraram a confirmar. Chá de folha verde, castanha, grão inteiro. "Pra quem tá fraco do sangue", dizia a avó, "e pra quem tá fraco do osso". Fernanda sorriu sozinha no silêncio da cozinha. A avó nunca tinha ouvido falar em enzima, mas sabia onde elas moravam.
No organismo, o manganês participa da quebra de carboidratos, proteínas e colesterol. É cofator da arginase, enzima do ciclo da ureia, da piruvato carboxilase, que alimenta a gliconeogênese, e da superóxido dismutase mitocondrial, a MnSOD, um dos principais escudos antioxidantes das células. Também ativa enzimas que constroem a matriz óssea — por isso sua falta se associa a ossos frágeis e crescimento comprometido.
Na semana seguinte, Fernanda montou o plano para Dona Zilda. Não foi uma revolução: foi um retorno. Feijão preto com mais frequência, aveia no café da manhã, castanha-do-pará à tarde, espinafre refogado no almoço, chá-verde antes de dormir. E, junto, a vitamina K — couve, brócolis, ovo, fígado de vez em quando. Porque o manganês, descobriu-se com o tempo, não faz o trabalho sozinho. Ele chama um parceiro.
Junto com a vitamina K, o manganês participa da síntese de fatores de coagulação e da cicatrização de ferimentos. Enquanto a vitamina K comanda a produção de proteínas que fazem o sangue coagular, o manganês sustenta as enzimas que reorganizam o colágeno e fecham o tecido ferido. Um sem o outro é como um pedreiro sem massa: tem a planta, tem a vontade, mas falta o que une os tijolos.
— Trinta dias, Dona Zilda. A senhora me promete?
— Prometo, filha. Mas se não sarar, eu volto aqui e sento na porta.
Voltou antes dos trinta. Não para reclamar: para mostrar. O talho tinha secado. A pele, que parecia ter desistido, tinha voltado a conversar com o corpo. A glicose baixou meio ponto, o colesterol veio melhor no exame, e ela disse, com aquele orgulho mineiro de quem não se rende fácil, que tinha subido a escada da igreja sem parar no meio. Fernanda anotou tudo, mas não precisava. A prova estava ali, no pé da senhora, na pele fechada, no sangue que finalmente lembrava como se coagular.
O manganês também participa do funcionamento do sistema imunológico e do sistema reprodutivo. Está presente na produção de mucopolissacarídeos, na atividade de células de defesa e na formação de hormônios sexuais. Carências prolongadas estão associadas a infertilidade, alterações na ovulação e menor resistência a infecções. O corpo inteiro, da medula óssea ao ovário, do testículo ao timo, pede por ele em silêncio.
À noite, Fernanda foi visitar o pai. Ele estava no quintal, sentado na cadeira de balanço, olhando o nada com a paciência de quem aprendeu a esperar o corpo. Ela sentou ao lado, sem pressa. Pegou a mão dele, a mão que tremia, e pensou nas duas faces do manganês: o que constrói osso e cicatriza ferida, e o que, em excesso, se acumula nos núcleos da base do cérebro e apaga a pessoa aos poucos.
A exposição crônica a poeiras e fumos de manganês — comum em mineração, soldagem e produção de ferro-ligas — pode causar manganismo, doença com sintomas semelhantes aos do Parkinson: tremores, rigidez, lentidão de movimentos e alterações de humor. O mesmo elemento essencial à vida, em dose errada, vira veneno lento. A fronteira entre o remédio e o mal é sempre uma questão de quantidade.
— Pai, a senhora Zilda sarou.
— Que bom — ele disse, sem perguntar quem era a senhora Zilda.
Fernanda ficou mais um tempo. O quintal cheirava a terra molhada.
Ela lembrou da aula de química, no segundo ano do ensino médio, quando a professora mostrou a tabela periódica e disse que o manganês tinha sido descoberto em 1774, na Suécia, por Johan Gottlieb Gahn, isolado da pirolusita — um mineral que os vidraceiros usavam para tirar a cor verde do vidro. O nome vinha do latim magnes, ímã, porque a pirolusita atraía objetos de ferro. Um ímã. Um elemento que atrai, que junta, que constrói. Fernanda olhou para o pai e pensou que a vida também tem dessas ironias: o mesmo átomo que segura os ossos de uma senhora de 74 anos é o que segura, em excesso, o corpo de um homem que passou a vida inteira perto dele.
O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de minério de manganês, com grandes depósitos na Serra dos Carajás, no Pará, e em Minas Gerais — o estado que carrega o nome do metal no próprio nome. O manganês também está na produção de aço (na forma de ferromanganês, que dá dureza e resistência), em pilhas alcalinas, fertilizantes, vidros e pigmentos. É, ao mesmo tempo, a espinha dorsal da indústria e um coadjuvante discreto do corpo humano.
Dias depois, Fernanda recebeu o resultado do exame de densitometria de Dona Zilda. A massa óssea tinha melhorado — pouco, mas tinha. Nada de milagre: apenas o corpo, abastecido do que faltava, voltando a fazer o que sempre soube fazer. Ela guardou o laudo na pasta e ficou olhando a janela. Pensou no pai de novo, no tremor que não passava, no diagnóstico que ninguém ousava mudar.
Não havia final feliz para Antônio. Havia, talvez, um final mais justo: reconhecimento. Fernanda começou a escrever, naquela noite, um ofício para o sindicato, pedindo que a exposição do pai fosse investigada como doença ocupacional. Não sabia se daria em alguma coisa. Mas sabia, com a certeza de quem viu uma ferida fechar em trinta dias, que algumas coisas só mudam quando alguém resolve olhar para elas.
O manganês não é herói nem vilão. É um ferreiro invisível: forja osso, costura pele, acende enzimas, acalma o sangue. E cobra caro quando o tratam mal.
Fernanda fechou o caderno, apagou a luz do consultório e, no caminho para casa, passou na feira para comprar castanhas. Para o pai, que não podia mais comer quase nada sem ajuda, ela comprou um pote de aveia. Pequeno. Mas era o que ela sabia fazer: alimentar o que ainda podia ser alimentado.