Contos
Uma História para Cada Elemento Químico · N.117 · Tony Ditlef

N.117 – Tenesso, A Centelha que Uniu os Mundos


Cena 1 — O Auditório (27 de janeiro de 2017, presente)

Nilza está sentada no auditório do Oak Ridge National Laboratory (ORNL), entre dezenas de cientistas, técnicos e autoridades internacionais. O ar está carregado com uma eletricidade que não provém de nenhum reator, mas da consciência coletiva de um momento histórico. Yuri Oganessian acaba de encerrar sua Eugene P. Wigner Distinguished Lecture, e o silêncio que se segue à sua última palavra é rapidamente substituído por uma salva de palmas ensurdecedora. O público aplaude de pé — não apenas o cientista lendário, mas as décadas de trabalho incansável, as noites insones e a precisão técnica que culminaram na descoberta do elemento 117.

O governador Bill Haslam sobe ao palco com um sorriso que reflete o orgulho regional. Ele começa a discursar sobre a importância do Tennessee para a ciência global, destacando que este é o segundo estado americano a dar nome a um elemento na tabela periódica. Nilza, no entanto, mal consegue ouvir as palavras protocolares. O som ambiente torna-se um zumbido distante enquanto a mente de Nilza viaja para 2008, para os corredores frios e os laboratórios de alta segurança onde tudo começou, muito antes das medalhas e dos discursos oficiais.

Cena 2 — O Desafio (flashback, 2008)

Nilza lembra-se com nitidez do dia em que Jim Roberto, Diretor de Parcerias Científicas e Tecnológicas do ORNL, apareceu no Radiochemical Engineering Development Center (REDC). Havia uma urgência em seus olhos que raramente se via em um ambiente regido pela paciência da física nuclear. Eles precisavam de berquélio-249, um isótopo extremamente raro e difícil de produzir, com uma meia-vida de apenas 330 dias. O relógio biológico do elemento já estava correndo antes mesmo de ser extraído.

O físico Joe Hamilton, da Vanderbilt University, havia sido a ponte crucial, colocando Oganessian em contato com Roberto. A proposta era audaciosa: produzir o berquélio como um subproduto da campanha de califórnio-252. Era uma corrida contra o tempo e contra as leis da probabilidade química. Nilza, como técnica sênior, sabia que qualquer erro na cronologia da irradiação tornaria o material inútil para os russos em Dubna. A pressão era palpável; o mundo da ciência pesada dependia de uma pequena amostra que desaparecia a cada segundo que passava.

Cena 3 — A Produção (2008-2009)

Seguiram-se meses de trabalho exaustivo no High Flux Isotope Reactor (HFIR) e no REDC. Nilza coordenou a equipe que monitorava a irradiação e processava o material radioativo com uma precisão cirúrgica. O reator operava em ciclo contínuo, um coração de nêutrons pulsando no centro de Oak Ridge. Nas células quentes do REDC, protegidas por metros de concreto e vidro plumbífero, os braços robóticos eram a extensão das mãos de Nilza, manipulando substâncias que nenhum ser humano poderia tocar.

A separação química do berquélio-249 do resto dos produtos de fissão foi um triunfo da engenharia química. Ao final do processo, restava um frasco contendo apenas 22 miligramas do isótopo — a única quantidade existente no mundo ocidental naquele momento. Nilza lembra-se do peso simbólico daquele frasco minúsculo. Ele foi lacrado, embalado sob protocolos de segurança máxima e enviado para Dubna, na Rússia, cruzando oceanos e fronteiras políticas para encontrar seu destino no acelerador de partículas.

O Tenesso (Ts) é o elemento de número atômico 117 da tabela periódica. Pertence ao grupo 17, o dos halogênios, mesma família do cloro e do flúor. Seu isótopo mais estável, o Ts-294, tem meia-vida de aproximadamente 80 milissegundos. Não existe na natureza — é um elemento sintético, criado pela fusão nuclear de átomos de cálcio-48 com berquélio-249. Sua descoberta foi anunciada em abril de 2010 por uma colaboração entre o Joint Institute for Nuclear Research (JINR) em Dubna, o Oak Ridge National Laboratory, a Vanderbilt University e o Lawrence Livermore National Laboratory.

Cena 4 — O Bombardeamento (flashback, 2009-2010)

Nilza nunca esteve fisicamente em Dubna, mas através dos relatórios técnicos e das teleconferências de madrugada, Nilza aprendeu a visualizar cada detalhe do que acontecia do outro lado do mundo. No cíclotron U-400 do Flerov Laboratory of Nuclear Reactions (FLNR), o alvo de berquélio que Nilza ajudara a produzir estava sendo castigado. Um feixe de íons de cálcio-48 era acelerado a velocidades próximas à da luz e disparado contra o material. Eram 60 trilhões de íons por segundo, uma tempestade atômica incessante.

Foram seis meses de bombardeamento ininterrupto. Nilza acompanhava os dados, sabendo que a fusão nuclear era um evento de probabilidade quase nula. Em colisões incrivelmente raras — quando a energia, o ângulo e o momento estavam perfeitamente alinhados — os núcleos de cálcio e berquélio finalmente se fundiam, vencendo a repulsão eletrostática. Seis átomos. Apenas seis átomos do elemento 117 foram detectados em todo o experimento inicial. Para o leigo, parecia nada; para Nilza e sua equipe, seis átomos eram o suficiente para confirmar que o homem havia, mais uma vez, expandido as fronteiras da matéria.

Cena 5 — O Reconhecimento (2010-2016)

O anúncio oficial da descoberta veio em abril de 2010, mas o caminho até a tabela periódica ainda seria longo e rigoroso. Seguiram-se anos de experimentos de confirmação conduzidos por uma elite de 72 cientistas de 16 instituições em diversos países. A ciência não aceita pressa; ela exige repetibilidade. Nilza viu o projeto crescer, tornando-se um símbolo de cooperação internacional que transcendia as tensões geopolíticas entre Washington e Moscou.

Em dezembro de 2015, a IUPAC e a IUPAP verificaram oficialmente a existência do elemento 117. O clímax ocorreu em novembro de 2016, quando a IUPAC aprovou o nome "tennessine" (tenesso, em português). O sufixo "-ine" foi escolhido para manter a tradição dos halogênios. Nilza sentiu um arrepio ao ver o nome do estado onde trabalhava imortalizado. Pela primeira vez na história, o Tennessee entrava para o panteão da química fundamental, um tributo permanente ao solo que abrigou o Projeto Manhattan e, agora, a descoberta do 117.

O nome "tennessine" foi uma homenagem ao estado do Tennessee, reconhecendo as contribuições do Oak Ridge National Laboratory, da Vanderbilt University e da University of Tennessee para a descoberta. Simultaneamente, a IUPAC aprovou o nome "moscovium" (Mc) para o elemento 115 — filho do decaimento do tennessino — em homenagem à região de Moscou, sede do JINR. E o elemento 118 recebeu o nome "oganesson" (Og), em honra a Yuri Oganessian, o físico que desenvolveu o método de "fusão a quente" para criar elementos superpesados.

Cena 6 — O Anúncio do Futuro (27 de janeiro de 2017, retorno ao presente)

De volta ao auditório, o governador Haslam faz uma pausa dramática antes de anunciar o próximo passo dessa jornada: o projeto da Fábrica de Elementos Superpesados (Superheavy Element Factory). Victor Matveev, o diretor do JINR, está presente na primeira fila e assente com a cabeça, confirmando a parceria contínua. O novo complexo em Dubna contaria com o cíclotron DC-280, um acelerador capaz de produzir feixes dez vezes mais intensos que qualquer outro no planeta.

Nilza sabe que o futuro já está sendo construído. O projeto que começou como um sonho de Oganessian agora tem infraestrutura real. Em 25 de março de 2019, o DC-280 seria inaugurado, e a partir de 2020, começaria a produzir resultados assombrosos: cinco novos isótopos seriam identificados em seus primeiros dois anos de operação. A busca pelos elementos 119 e 120 — os pioneiros do oitavo período da tabela periódica — não era mais ficção científica, mas uma meta de engenharia com data marcada.

A Fábrica de Elementos Superpesados (Superheavy Element Factory), no Flerov Laboratory of Nuclear Reactions do JINR em Dubna, foi inaugurada em 25 de março de 2019. Seu acelerador principal, o DC-280, atinge intensidades de até 60 trilhões de íons por segundo — dez vezes superior a qualquer acelerador equivalente no mundo. Entre 2020 e 2022, a Fábrica produziu cinco novos isótopos: lawrêncio-264, moscóvio-286, darmstádio-276, hássio-272 e seabórgio-268. O objetivo atual é sintetizar os elementos 119 e 120, que inaugurariam o oitavo período da tabela periódica.

Final (reflexão)

Nilza olha para as próprias mãos, agora repousadas sobre o colo. São as mesmas mãos que, anos antes, manusearam os painéis de controle do REDC com luvas de chumbo, que verificaram as leituras de pureza do berquélio até que seus olhos ardessem, e que seguraram o frasco de 22 miligramas destinado à Rússia. Nilza é a técnica que nunca viu um átomo de tenesso — porque ninguém jamais viu, dada a sua existência efêmera e microscópica — mas que participou da criação de algo que agora existe para sempre na estrutura do conhecimento humano.

Nilza pensa em seu pai, um professor de química no interior de Minas Gerais, que lhe ensinara as primeiras fórmulas com uma tabela periódica desbotada e incompleta pendurada na parede da sala. Ele costumava dizer que cada elemento era uma letra de um alfabeto que o Criador usara para escrever o universo. Nilza nunca soube se compartilhava daquela fé mística, mas sabia, agora, que o tenesso era uma letra nova, escrita a quatro mãos, em dois idiomas, por homens e mulheres que escolheram a colaboração em vez da competição.

Ao se levantar para a recepção final, Nilza sente uma paz profunda. A ciência pesada, muitas vezes vista como fria e impessoal, revelara-se para Nilza como o mais humano dos empreendimentos. Afinal, às vezes, seis átomos e a vontade de cooperar bastam para reescrever um pedaço da história e iluminar o caminho para o oitavo período da criação.

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