A neve começou cedo naquele novembro de 2016, e Milton Sampaio ainda não tinha se acostumado com o frio de Dubna. Físico experimental, recifense de nascença, ele chegara ao Instituto Conjunto de Pesquisas Nucleares dezoito meses antes, com dois malotes, um dicionário russo com a lombada gasta e a convicção de que nenhum lugar do mundo poderia ser mais longe de casa do que aquele. Estava errado. O lugar mais longe de casa, naquela manhã, era o quadro de giz do laboratório, onde alguém havia escrito, com o giz amarelo de sempre, uma pergunta: "Como se chama o que não fica?"
O moscóvio é o elemento químico de número atômico 115, símbolo Mc. Superpesado e sintético, ocupa a sétima linha da tabela periódica, no grupo 15 — a mesma família do nitrogênio, do fósforo e do bismuto, os pnictogênios. Não existe na natureza: cada átomo já produzido foi montado um a um, dentro de um acelerador, e nenhum deles viveu mais do que um piscar de olhos.
Milton estava na sala de controle do ciclotron U-400 quando o e-mail chegou, encaminhado pela secretaria do instituto com uma única linha no assunto: "A IUPAC anunciou os nomes". Ele leu duas vezes, levantou da cadeira e foi direto ao escritório de Arkady Petrov, seu orientador em Dubna, setenta e um anos, quarenta e sete deles gastos dentro daquele instituto.
— Treze anos — disse Arkady, sem tirar os óculos do papel. — Treze anos chamando o 115 de Uup. Agora é moscóvio. Mc. — Fez uma pausa. — Pelo menos continuou terminando em "ium". Isso a química não perdoa.
Milton conhecia aquela história de cor. Na primeira semana de trabalho, Arkady o havia levado ao quadro de giz e dado aula de batismo.
— Quando um elemento é sintetizado e ninguém sabe ainda quem vai ficar com a autoria, a IUPAC dá um nome provisório — explicara o velho físico, batendo o giz na lousa. — Um nome de engenharia, sem dono. Cada sílaba vale um número: un é um, do latim. Bi, dois. Tri, três. Quad, quatro. Pent, cinco, emprestado do grego penta. E assim por diante até o enn, nove. Pega os dígitos do número atômico, na ordem, junta as sílabas, fecha com "ium" e pronto. O elemento 115 é um, um, cinco: un-un-pent-ium. Ununpentium. Símbolo Uup.
— E se fosse 118? — perguntara Milton.
— Un-un-oct-ium. Ununoctium. — Arkady tinha sorrido por baixo do bigode grisalho. — Feio, eu sei. Mas honesto. Enquanto os laboratórios disputam a prioridade, o elemento não fica sem registro. Nem os filhos que vivem milissegundos nascem sem nome.
A sistemática de nomenclatura temporária da IUPAC — a União Internacional de Química Pura e Aplicada — combina raízes latinas e gregas para batizar provisoriamente os novos elementos: nil (0), un (1), bi (2), tri (3), quad (4), pent (5), hex (6), sept (7), oct (8) e enn (9). O nome provisório é formado pelos dígitos do número atômico, na ordem, seguidos da terminação "-ium". Assim, o elemento 115 virou un-un-pent-ium: ununpentium, símbolo Uup. O sistema evita que descobertas contestadas sejam batizadas cedo demais com o nome de quem não teve, afinal, a prioridade.
Naquela tarde de novembro, com o e-mail impresso sobre a mesa, Arkady contou a síntese pela enésima vez — mas, pela primeira vez, no passado definitivo.
— Em 2003, a gente colocou um alvo de amerício-243 no feixe do U-400 e mandou íons de cálcio-48 contra ele. O alvo veio dos Estados Unidos, cultivado em reator — amerício não se compra em esquina. O cálcio-48 é um projétil raro, gordo, lento do jeito que a física nuclear gosta. Quando um núcleo de cálcio se fundia com um núcleo de amerício, nascia o 115. Ele vivia um instante e se desmanchava em partículas alfa, passando pelo elemento 113 no caminho. Não vimos o átomo, Milton. Vimos a assinatura do seu funeral. E foi a assinatura que bastou.
A síntese aconteceu em 2003, numa colaboração entre o Instituto Conjunto de Pesquisas Nucleares de Dubna e laboratórios dos Estados Unidos, liderada pelo físico Yuri Oganessian. Um alvo de amerício-243 foi bombardeado por íons de cálcio-48 acelerados no ciclotron U-400, e os raros núcleos de 115 que se formaram foram identificados pelas cadeias de decaimento — passando pelo elemento 113 — registradas no separador de recuos a gás. Apenas em dezembro de 2015 a IUPAC e a IUPAP reconheceriam oficialmente a equipe de Dubna como descobridora do elemento.
— E o nome novo? — perguntou Milton. — Por que Moscou?
— Por que não? — Arkady se ajeitou na cadeira. — O 105, o dúbnio, já levou o nome da cidade. Agora a região inteira entrou na tabela. Moscou, Dubna, o Volga congelando ali fora: tudo isso é o endereço do elemento. Quem fez o átomo nasceu e vai morrer aqui perto. O nome fica.
Em 28 de novembro de 2016, a IUPAC anunciou os nomes definitivos de quatro elementos da sétima linha da tabela periódica: nihonium (113), moscóvio (115), tennessine (117) e oganesson (118). O elemento 115 recebeu o nome de moscóvio, símbolo Mc, em homenagem à região de Moscou, na Rússia, onde se situa o Instituto Conjunto de Pesquisas Nucleares de Dubna, local em que os experimentos com elementos superpesados são desenvolvidos até os dias atuais.
O nome seguiu a tradição da casa: o elemento 105, dúbnio, já havia sido batizado em honra da própria cidade de Dubna.
Arkady apontou para a última linha do comunicado.
— E olha o 118. Oganesson. O próprio Oganessian, vivo, com a barriga no portão para ver. É só o segundo elemento da história batizado em homenagem a alguém em vida. O homem passou a vida caçando coisas que duram milissegundos e ganhou um nome que dura para sempre. Há uma lição aí, Milton, mas eu deixo você descobrir sozinho.
A lição demorou mais um inverno para aparecer. No ano seguinte, já com a aposentadoria assinada, Arkady chamou Milton para um último café na sala de controle. O ciclotron dormia num zumbido baixo, do jeito que dormem máquinas grandes.
— Você me perguntou uma vez o que é que se sente passando a vida em cima de um elemento que não fica — disse o velho. — Eu respondi mal. Deixa eu responder direito. O átomo morre em meio segundo, sim. Mas o átomo nunca foi a coisa mais duradoura que a gente fabrica aqui. O nome é. O Mc-290 vai virar bismuto e nêutrons antes do almoço, e ninguém sente falta. Mas "moscóvio" está escrito na tabela que meus netos vão estudar na escola. A meia-vida de um nome, Milton, é infinita.
O isótopo mais estável do moscóvio conhecido até hoje, o Mc-290, tem meia-vida de cerca de 650 milissegundos — pouco mais de meio segundo. Os demais isótopos vivem em milissegundos ou menos. Mesmo assim, esses tempos são generosos para a física de núcleos superpesados, e cada decaimento registrado ajuda a mapear a chamada "ilha de estabilidade": a região prevista da tabela periódica em que núcleos ainda mais pesados poderiam viver minutos, anos, talvez séculos.
Ninguém jamais viu um pedaço de moscóvio — nunca foi produzida quantidade suficiente para formar um grão visível a olho nu. As previsões teóricas, corrigidas por efeitos relativísticos, desenham um metal denso e provavelmente volátil, um parente distante do bismuto que talvez nem se comportasse como os pnictogênios mais leves. Na prática, tudo o que se conhece do elemento é o rastro do seu decaimento: a sequência de partículas alfa que ele deixa nos detectores, como a assinatura de alguém que atravessa a sala sem parar.
Milton ficou em Dubna mais três anos. Aprendeu a preparar alvos, a acalmar feixes, a ler cadeias de decaimento como quem lê partitura. Quando o contrato acabou e o avião de volta a Recife foi anunciado no alto-falante do aeroporto de Sheremetyevo, ele fez o que havia prometido a si mesmo: voltou ao laboratório uma última vez, pegou o giz amarelo e, embaixo da pergunta que ninguém apagara do quadro, escreveu a resposta.
"Como se chama o que não fica?"
Embaixo, com a letra trêmula de quem escreve com frio: "Fica o que tem nome. O resto é meia-vida."